Artesan

Vida e Inspirações de Dona Irinéia

Criado em 03 de Junho de 2021

 

O Sítio de Muquém, única comunidade remanescente de Palmares, o maior e mais resistente quilombo das Américas, fica a seis quilômetros do centro de União de Palmares e a 80 de Maceió, capital alagoana. A localidade tem cerca de 200 anos de existência e os atuais moradores se dividem entre a agricultura familiar e a produção de artesanato.

O povoado surgiu graças a cinco mulheres que desceram a Serra da Barriga, após a destruição da federação liderada por Zumbi dos Palmares, e se abrigaram nas imediações do rio Mundaú. É nessa terra, onde a história foi escrita a base de sangue, enxada e barro, onde nasceu Irinéia Rosa Nunes da Silva, hoje com 74 anos.

Durante parte da infância e a adolescência, Irinéia ajudava a mãe a fazer panelas de barro. Enquanto alisava as peças com uma pedra, não imaginava vir a ser uma das renomadas artesãs não apenas de Alagoas, mas do Brasil. Até porque abandonou o ofício para casar.

Nos 11 anos de convivência com José, apelidado de Duda, foi maltratada pelo marido alcoólatra. Um dia resolveu acabar com os abusos: deixou o parceiro e passou a pedir esmolas “para não morrer nem matar os três filhos”.

O segundo casamento com Antônio Nunes, o Toinho, rendeu amor e afeto, mas não livrou os dois do trabalho pesado: Irinéia trabalhou com o companheiro em um canavial por dois anos. Adoeceu e não pôde mais enfrentar o trabalho. Ficou em casa cuidando das crianças até o destino a levar de volta ao barro.

“Foi quando o pessoal passou a vir encomendar cabeças de barro para pagar promessas em Juazeiro do Norte. Aí rendeu interesse de continuar pra frente. Até hoje, graças a Deus, (o trabalho) tem me dado uma boa ajuda” – conta Mestre Irinéia, desde 2005 nomeada Patrimônio Vivo de Alagoas.

O título concedido às pessoas de baixa renda que detêm conhecimento e técnicas necessárias para a preservação cultural do estado e condições de repassá-los para novas gerações valoriza os profissionais e garantem incentivo mensal de um salário mínimo e meio.

Animada com a procura pelas cabeças, a artesã passou a produzir bonecas em forma de cabaças e moringas. O primeiro a reconhecer o talento da ceramista foi o dono de uma galeria, chamado Jerônimo. Foi ele quem lhe deu dicas para precificar adequadamente as peças até então comercializadas por valores muito baixos. Também a apresentou a clientes como a arquiteta e decoradora pernambucana Janete Costa, grande incentivadora e divulgadora do trabalho da artista quilombola.

 

O BEIJO, A JAQUEIRA E A LENHA

A viagem mais longa feita por Irinéia Nunes da Silva foi para o Rio de Janeiro, onde visitou a família e participou de uma exposição. Suas obras, porém, foram muito além. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), por exemplo, levou as esculturas dela para a Itália, a fim de apresentá-las na Expo Milão, feira que reúne obras de arte de 140 países. Marchands negociaram peças dela para a Alemanha e Estados Unidos.

 

Uma delas, “O Beijo”, virou cartão postal de Maceió em uma versão de seis metros de altura, feita de isopor naval e fibra de vidro. A obra, colocada à beira da Lagoa da Anta, em 2018, integra o “Circuito Alagoas Feita à Mão”. E em escala reduzida tem destaque no Espaço de Memória Artesã Irinéia Rosa Nunes da Silva (Museu do Muquém), mantido pela Universidade Estadual de Alagoas.

A inspiração para o trabalho surgiu a partir de uma experiência pessoal da autora. Quem conta a história é a filha Mônica:

“Minha mãe dizia que não gostava de beijar, mas meu pai sempre gostou. Um dia a dona Renata, primeira dama de Alagoas, chegou aqui e pediu para ver os dois se beijarem. Meu pai aproveitou e beijou. Aí os dois criaram essa peça – conta.

 

“A Jaqueira” e “A Lenha” foram inspiradas em uma quase tragédia, na qual Irinéia e seus familiares escaparam da morte por pouco. No dia 18 de junho de 2010, o rio Mundaú transbordou, alagando o povoado. Para se salvar, 52 pessoas subiram em dois pés de jaca e passaram horas nos galhos. Mônica foi uma delas. Já Irinéia passou a noite em cima de um maço de lenha com outras quatro pessoas.

Na ocasião, a enchente deixou 86 famílias desabrigadas e destruiu duas mil esculturas da artesã. Em dezembro de 2014, o governo federal entregou um conjunto habitacional com 120 casas do projeto “Minha Casa, Minha Vida” para os quilombolas atingidos pelas águas.

“Eu fiquei fazendo no barro a história que aconteceu com a gente. No início, era um pedido tão grande dessa jaqueira. Nem conto as que eu fiz. Depois, o barro deu problema. A gente caprichava para fazer peça. Botava no fogo e, no outro dia, quando ia tirar, tava um bagaço. Aí eu me desgostei. Agora faço pouco. Mês passado a gente botou quatro no forno. Só saiu uma inteira” – diz Irinéia.

Apesar da qualidade do trabalho, que lhe rendeu a indicação de finalista do Prêmio Unesco de Artesanato da América Latina e Caribe, Dona Irinéia não assinava as suas obras por não saber ler nem escrever. A princípio, o Sebrae fez um carimbo para ela aplicar nas obras.

Em 2007, Mônica resolveu deixar a capital alagoana, onde morou por 15 anos, e voltar para Muquém com o propósito de ajudar os pais. Foi ela quem ensinou a ceramista a escrever o nome. Ir adiante, não conseguiu. Além da assinatura, Irinéia ganhou uma parceira na arte.

Quando começou a fazer as primeiras cabeças como ex-votos (imagens oferecidas aos santos por uma graça alcançada), a artesã não tinha noção de como dar um bom acabamento.

“Tudo ficava muito esquisito” – admite.

O apoio do Sebrae e de outros profissionais mudaram a situação. As cabeças sofreram transformações significativas e ganharam admiradores e clientes. O Hotel Marabá, em São Paulo, foi decorado com elas. Muitas com animais e braços pousados nelas. A ceramista preferia pássaros e galos. Já Toinho, a essa altura também dedicado ao barro, criava outras com escorpiões, caranguejeiras e lagartixas.

Algumas das obras antigas de Irinéia estão no livro "Em nome do autor: artistas e artesãos do Brasil", de Beth e Valfrido Lima. Um exemplar da publicação, esgotada, está à venda no Mercado Livre por R$ 1.500.

Não são apenas as experiências pessoais que inspiram dona Irinéia. As novelas servem de temas para novas peças. Em 2004, a uma personagem da trama "Da cor do pecado" motivou a artesã a criar algo parecido. A atriz Rosi Campos fazia o papel de Mamuska, mãe de cinco filhos, que usava dois coques no alto da cabeça.

“Quando eu comecei a fazer esse cabelinho, o pessoal perguntava porque eu tinha botado essas duas pontas (chifres) nela. Eu contava a história e logo se acostumavam. Até hoje ela é uma das recordistas de venda” – revela.

Da novela "Cobras e Lagartos" (2006) surgiram peças mostrando os dois bichos.

Dez anos depois, o trabalho da mestre quilombola foi usado no cenário da novela “A lei do amor”, na qual Cláudia Abreu vivia Helô, dona de uma galeria. Mônica conta que a mãe vendeu peças para os produtores da Rede Globo. Lembra ainda da cena em que o marido da marchand discutiu com ela e quebrou tudo. Ela não sabe se as obras da mãe foram destruídas ou substituídas na filmagem.

 

A PERDA DO COMPANHEIRO

No final de 2020, Irinéia e Antônio Nunes, que dividiam a vida e o ateliê no Muquém, contraíram covid-19. Os dois foram internados juntos. Ela, diabética e hipertensa, não precisou ser entubada. Dezessete dias depois, a artesã teve alta. Em 8 de janeiro passado, aos 80 anos, Toinho não resistiu.

Nos últimos tempos as crises hipertensivas de dona Irinéia são frequentes. Em meados de abril, quando foi entrevistada por Meus Sertões/Artesan Brasil, ela tinha sido levada para o hospital duas vezes naquele mês. Em uma delas, a pressão sistólica (contração do coração) chegou a 20, quando o normal é 12, e o colesterol estava em 400 mg/dl, mais do dobro do índice ideal. Há muito a artista popular não participa de feiras, onde tinha prazer de ver a obra de colegas.

É o trabalho e a prosa que ajudam a ceramista a esquecer os problemas. Na conversa, afirma nunca ter pintado as peças porque a clientela prefere as mais rústicas.

Desde que passou a ser evangélica, dona Irinéia vive um dilema: o pastor da comunidade a pressiona para ela não fazer imagens de santos. No entanto, continuam chegando encomendas de Nossa Senhora da Aparecida, Nossa Senhora de Fátima, Santa Luzia, Santo Antônio e São Francisco. As esculturas fazem parte de uma série belíssima.

Por enquanto, a artesã, apreciadora de Padre Cicero e Santa Quitéria nos tempos em que seguia o catolicismo, argumenta que produzir não significa idolatrar. E assim como os antepassados da República de Palmares, instalados na Serra da Barriga há 400 anos, ela vai resistindo.

 

Texto de Paulo Oliveira

Jornalista e criador do blog
Meus sertões