Artesan

Tributo a Janete Costa

Criado em 23 de Abril de 2021


(Fotos do Instagram @mestrejoaquimoficial)

 

Joaquim Alves Pereira, o Mestre Joaquim, lembra do primeiro encontro que teve com a arquiteta e designer pernambucana Janete Costa (1932-2008). Levada pelo artesão Tiago Amorim a Tracunhaém (PE), no início dos anos 1970, a visitante entrou na casa do jovem artista. A precária iluminação de candeeiro não a impediu de ver a peça de barro recém concluída.

- Bote um nome nela porque quero comprá-la. Vá em frente, você tem talento – aconselhou.

Joaquim tinha 15 anos quando batizou a obra de “Sagrada Família”, até hoje um de seus trabalhos mais procurados. Assim começou a parceria de 36 anos entre Janete e o artesão, sempre chamado por ela de menino. Nesse período, a mecenas organizou exposições, levou outros arquitetos e pessoas influentes para conhecer as obras do futuro mestre e espalhou as criações dele por diversos lugares.

- Janete Costa foi nossa referência. Falo dela e me emociono. Hoje eu sou grato a Deus em primeiro lugar e a ela, em segundo. Acredito que ela está viva aqui com a gente – disse o artesão.

Aos 55 anos, o mestre recorda que sua vida mudou após ser descoberto pela protetora, conhecida por inserir a arte popular em seus sofisticados projetos de interiores. Ele começou a ser procurado e vender bem mais o seu trabalho.

 


(Fotos de Itawi Albuquerque / Secretaria de Desenvolvimento Econômido e Turismo de Alagoas/Divulgação)

 

Janete Costa também fez diferença no reconhecimento da artesã Irinéia Rosa Nunes da Silva, 74 anos, nascida no hoje distrito de Muquém, comunidade remanescentes do Quilombo de Palmares, em União dos Palmares. Bem antes de ser considerada patrimônio vivo do estado de Alagoas, Mestre Irinéia foi apresentada à incentivadora de arte popular pelo dono de uma galeria de Maceió. Logo as duas ficaram amigas.

Os primeiros trabalhos da artesã quilombola - cabeças de barro e bonecas em forma de cabaças - tiveram divulgação maciça e fizeram parte de projetos da arquiteta como a decoração do Hotel Marabá, em São Paulo.

A presença de Janete até hoje é muito forte nos principais centros de artesanato do Nordeste por tudo feito em favor dos artistas, incluindo a luta pela melhoria de renda deles.

- Ela brigava com as pessoas quando tentavam se aproveitar de nossa inocência e pagar menos pelo valor das nossas peças – contou Mestre Joaquim.

O reconhecimento popular, no entanto, não tem a mesma dimensão em outras instâncias sociais. Pelo menos dois dos cinco autores* do livro “Janete Costa - Arquitetura, Design e Arte Popular”, lançado no dia 25 de março pela Editora Cepe (Companhia Editora de Pernambuco), ressaltam que a inquieta e inovadora arquiteta não tem a valorização merecida no Brasil e no exterior.

- Talvez por ser mulher e nordestina, uma combinação ainda muito subestimada no meio arquitetônico nacional - avaliou o crítico e escritor Júlio Cavani.

Já a jornalista, curadora e doutora honoris causa da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) Adélia Borges, 69 anos, ao participar do podcast Casa Frente e Verso, admitiu que Janete é muito conhecida, mas poderia ser mais. Segundo ela, existe gaps (lacunas) que precisam ser preenchidas.

Adélia acrescenta dois fatores que não permitiram a valorização plena da amiga, além dos apontados por Cavani,: o fato de ela ser febril, fazer muitas coisas ao mesmo tempo, e a inexistência de assessoria de imprensa para divulgar tudo o que era produzido.

- Isso deixou o reconhecimento público menor do que a contribuição dela – afirmou.

No ensaio, Adélia citou que a gênese da atuação de Janete foram os projetos de interiores para residências. A jornalista reproduziu parte da entrevista, realizada em 1991, na qual revelou como Janete Costa passou a se distinguir ao dar valor às próprias raízes:

- Criança eu consumi o pote, tomei água de quartinha, brinquei com brinquedos de Vitalino e com bruxas de pano, cozinhei em panelas de barro. Mas quando fui crescendo, tudo isso foi sendo associado dentro de mim a um estado de pobreza. A geladeira, o rádio, o liquidificador (...) é que foram importantes. Somente quando tive muita distância é que percebi que o pote e a quartinha tinham sido um privilégio para mim. Isso aconteceu quando eu morava no Rio, no início da década de 1960. O forte dos Reis Magos, em Natal, ia ser transformado por Aloísio Alves, então governador do Rio Grande do Norte, num museu de armas. Mas eu sugeri a troca por um museu de arte popular e passei meses viajando, pesquisando mobiliários, brinquedos, arte lúdica, arte utilitária, arte sacra, com uma grande paixão. Foi quando acordei e reencontrei minhas origens – declarou a entrevistada.

 


(Casarão reformado para abrigar o Museu Janete Costa em Niterói: Secretaria de Cultura de Niterói/Divulgação)

 

Além do livro à venda no site da Editora Cepe (www.editora.cepe.com.br), há várias formas de conhecer a grandeza dessa genial pernambucana. A visita presencial ou virtual ao Museu Janete Costa de Arte Popular (link), mantido pela prefeitura de Niterói (RJ), uma das cidades onde a arquiteta morou e atuou, é obrigatória. O espaço é um antigo sobrado residencial, reformado pelo arquiteto Mário Costa Santos, filho da homenageada.

Dedicado a uma das maiores pesquisadoras e especialistas em arte popular brasileira, o equipamento foi inaugurado no dia 28 de novembro de 2012, data do quarto ano da morte da pernambucana. Há muitas atividades voltadas para crianças, dentre as principais atrações. Outras são exposições temporárias e de longa duração, cursos, palestras, seminários e oficinas.

(*) Os autores do livro sobre Janete Costa são: Adélia Borges e Júlio Cavani, os arquitetos Lauro Cavalcanti e Marcelo Rosenbaum e o crítico de arte Marcus Lontra.

 

Texto de Paulo Oliveira

Jornalista e criador do Blog Meus Sertões